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João Gigante, Archeo.

EXPOSIÇÕES > Adaptação e Transição

Curadoria Virgílio Ferreira

Cada época pode ser caracterizada pela forma como são geridas as expectativas e medos coletivos. Ao longo dos últimos 50 anos, abriu-se caminho a uma sociedade de comunicação; desde então começaram a surgir os primeiros medos e preocupações relacionadas com mudanças ambientais e ecológicas. Hoje, a questão coloca-se já em termos de risco iminente, num contexto de emergência que, acompanhando Donna Haraway, se sintetiza na interrogação: Como viver melhor num planeta vulnerável que ainda não está morto?

Adaptação e Transição é uma exposição que resulta do programa de criação artística desenvolvido no âmbito da Ci.CLO Bienal Fotografia do Porto. A proposta curatorial pretende contribuir para o debate sócio-ecológico no domínio da cultura visual, apoiada na urgência de se desenvolverem novas formas de relacionamento humanos-natureza, que suportem a estabilidade do meio ambiente e da biodiversidade.

De que forma mobilizações artísticas como esta podem operar nesta conjuntura de grandes contradições, desafiando a necessidade emergente de políticas e ações que questionem as estruturas da governação global, que continuam a promover estratégias ecologicamente insustentáveis? Como diagnosticar esta “crise do nosso tempo” para além do pessimismo que tem caracterizado este estado de passividade global? Qual é a “response-ability” que queremos incentivar neste contexto de emergência?

Para se continuar esta caminhada evolucionária de Adaptação, é preciso desenvolver novas relações equilibradas entre espécies, que determinem a sobrevivência e estabilidade do planeta; neste processo de Transição é urgente implementarem-se estratégias mais eficazes de renovação social e ambiental. Estas tarefas que nos implicam a todos, exigem re-imaginar outros modelos colaborativos e apoiar re-orientações perceptuais abertas a outras formas de sentir.

This Savage Garden - Jayne Dyer

Crise

A incerteza, o colapso e os valores limite fazem parte das nossas explicações quotidianas sobre as condições ecológicas atuais.

This savage garden oferece um quadro discursivo alternativo, uma linguagem de especulação como estratégia para criticar o passado e a visão do futuro dos nossos tempos. Particularmente, para reconhecer a natureza insinuante da propaganda e como esta afeta a tomada de decisões no que respeita o aquecimento global e a sobrevivência do ecossistema.

O trabalho, concebido como uma peregrinação secular a cinco locais do Jardim, oferece espaços para contemplar a nossa capacidade de adaptar o nosso comportamento no caminho para um futuro sustentável. Os títulos específicos proporcionam pistas para o conteúdo crítico: the weight of distraction [o peso da distração], the weight of survival [o peso da sobrevivência], the weight of noise [o peso do ruído], the weight of disappearance [o peso do desaparecimento], the weight of reflection [o peso da reflexão].

Num mundo impulsionado por um apetite insaciável pelo espetáculo, This savage garden é intencionalmente tranquilo, evasivo, intervencionista. Cada local conjuga a história hortícola e social do Jardim.

https://jaynedyer.com/

How Curious How Real - Lisa Hoffmann

how curious how real é uma taxinomia das ideias inscritas nas nossas formas humanas e atuais de ver, conhecer, fazer e, em última análise, da nossa própria Biosfera.

A instalação integra os códigos visuais dominantes do “Natural”, como as paisagens romantizadas da ilha, do deserto, da montanha, ou das entidades singulares plenas de poder simbólico, como a palmeira, a concha, o vento, o sol... Esta imagem autorreflexiva deriva das narrativas glorificadas da Era dos Descobrimentos, da Ciência Moderna, da História Natural, da Mitologia Popular e da formação do Comércio Mundial e das Viagens. A questão de como esta relação do Ocidente com a Natureza moldou muitas histórias ilusórias, unidimensionais e fragmentadas que partilhamos é central neste trabalho.

As esculturas, os objetos e as fotografias estão instalados numa sucessão de locais dispersos nos jardins do Palácio de Cristal, à espera de serem encontrados. Em conjunto com a instalação central situada na Concha Acústica, moldam espaços negativos, criam inversões e formam as triangulações da criação dos nossos mapas e roteiros de viagem. A instalação é uma tentativa de traçar as narrativas e as construções concecionais essenciais que moldam a realidade que partilhamos - “humanité, tu es mon paysage“.

Tchon d'Holanda - Diogo Bento

Iniciado em 2017, este projecto tem-se desenvolvido através da aproximação a um território agrícola e humano que, apesar de pequeno, apresenta uma enorme complexidade e heterogeneidade.

O perímetro agrícola de Tchon d’Holanda é um projecto do governo de Cabo Verde, com financiamento da Cooperação Holandesa.

A grande inovação desta iniciativa é a utilização de águas residuais tratadas para o regadio de plantas fruteiras e hortaliças. Pretendia-se, com a introdução desta tecnologia, fazer face às condições ambientais muito adversas que Cabo Verde apresenta, nomeadamente no que toca à disponibilidade de água pluvial. No entanto, o sub-dimensionamento das infraestruturas, a falta de meios e a falta de investimento, monitorização e acompanhamento a médio/longo prazo tem gerado uma situação de abandono, isolamento e deterioração das culturas, afectando os cerca de 90 agricultores que aqui subsistem de forma muito precária.

Os agricultores encontram-se reféns das sementes disponíveis comercialmente em Cabo Verde, importadas de vários países da Europa e pouca adaptadas ao clima local, com consequências graves ao nível do empobrecimento do património genético e cultural local e nacional.

Para além das dificuldades habituais da agricultura de subsistência praticada em Cabo Verde, este pequeno oásis é um exemplo das contradições típicas da cooperação internacional.

No limite está em causa o abandono e marginalização de um enorme capital humano e de um acervo de saberes e experiências acumuladas.

https://www.diogobento.com/

An Immense Journey - Cláudio Reis

Uma imensa viagem para um lugar desconhecido, através da qual ‘adaptação e transição’ incorpora o anseio humano de um retorno espiritual à natureza. Tropeçando para o interior da toca do coelho, perdendo a orientação acima das nuvens, observando em silêncio uma parede de areia negra, o simulacro procura uma ressonância emocional com o desequilíbrio ecológico do presente ao recuperar um sentido perdido de maravilhamento e mito. Estamos sozinhos perante estas imagens. Cada peça é concebida enquanto portal para uma articulação distinta de matéria e luz, centrada tanto na curiosidade do olhar para dentro como na sugestão de ser envolto por algo para lá do visível. Sob a superfície estes portais encerram uma estranheza intrínseca, em parte memória, em parte sonho. Atravessar o espelho pressupõe um desafio para a sociedade contemporânea: a necessidade de cultivar empatia – e, por extensão, civilidade – com o que nos precede.

http://www.umclaudio.com/

La Vie au Grand Air II - Sérgio Leitão

La Vie Au Grand Air II é uma proposta de intervenção desenvolvida especificamente para o contexto dos Jardins do Palácio de Cristal. Remete-nos para uma reflexão sobre o impacto das progressivas alterações do status quo sócio-ecológico, no âmbito de mutações ambientais, identitárias e técnicas. Considera a relação homem-animal e a sua envolvente (o jardim como analogia do planeta), a ligação entre espaço e estrutura (como metáfora de libertação e distopia espacial) ou a fusão natureza-técnica (explorando a contaminação entre estas dimensões).

Estabelecendo ligações com uma paisagem politizada, cruzamos espaços e estruturas que invocam a reflexão. Confrontados com a transformação de elementos e contextos de um passado recente e distante, percorremos um espaço-imagem em constante recomeço.

Uma Conversa sobre Terra - Constanze Flamme

“O jardim é a menor parcela do mundo e é também a totalidade do mundo.”
Foucault

Uma conversa sobre terra constitui uma peça de diálogo permanente que recorre ao jardim, com os seus múltiplos níveis de significado e histórias, como ponto de partida para refletir sobre a angústia, a pertença e a relação com o mundo. Utilizando o solo como uma metáfora e noções sobre o enraizamento e o desenraizamento em diferentes condições de vida, o trabalho explora as áreas interligadas na migração humana e a forma como tratamos o ambiente e nos acolhemos a nós próprios em analogia com os ecossistemas ameaçados. A adaptação não é somente um processo crucial na reação e regeneração de ecossistemas em stress, mas é também uma questão de criar resiliência e convivência nas sociedades em tempos de um crescente populismo nos cenários políticos. Como fazemos do mundo a nossa casa?

Os retratos fazem parte destas conversas que tocam a ânsia e a pertença, a linguagem, as identidades, a migração e o (pós) colonialismo na experiência de todos os dias. Provenientes da pergunta inicial: quando descolonizamos a floresta? as frases são usadas como suspensões poéticas que questionam a nossa relação com a ecologia e a criação do mundo, transformando-se em banners de propaganda para exibição no Jardim.

Como resultado, o trabalho convida a diferentes tempos e gestos de intercâmbio de trabalhos artísticos durante a Bienal e, em conjunto, a despender dinheiro para plantar árvores em Portugal em colaboração com a organização regional Cabeço Santo - uma paisagem (imagem) que cresce como uma impressão duradoura e um impacto após a Bienal. Esta contribuição visa um enquadramento ativo e em expansão da fotografia de paisagens, respondendo às emergências ecológicas e aos incêndios florestais recorrentes, às ameaças das monoculturas de eucalipto num país já propenso aos impactos do aquecimento global.

https://www.constanzeflamme.de/

INTERVENÇÃO NO LOCAL:

Como parte do trabalho, será feita uma intervenção no local e um convite ao público do Porto, sendo oferecidas sessões de retrato nos jardins do Palácio de Cristal. Vai poder ser retratado no seu local favorito dos jardins e juntar-se às vozes locais sobre o que deseja semear e cuidar - tanto botânica como socialmente.

17 MAIO > 16h às 19h
18 MAIO > 12h às 15h
19 MAIO > 16h às 19h
21 JUNHO > 16h às 19h
22 JUNHO > 16h às 19h

É Ainda Manhã - Maria Oliveira

A realidade é sempre a iminência de algo por acontecer, a transição é o estado mais natural das coisas.

Ao mundo pensamo-lo à nossa medida, sob domínio, ajeitado às nossas mãos. Atentos ao que podemos controlar.

Mas a vida pertence-nos em igual medida que a morte. Assistimos sempre àquilo que acaba.

Pensar o mundo como um lugar comum e mutável é também reconhecer-lhe a fragilidade e impermanência. E esta condenação é a sua beleza.

Apesar de tudo o que se organiza, que se constrói e abandona para nos servir, será no que nos escapa que estaremos mais seguros. Naquilo que existe apesar de nós.

Neste sentido, e neste momento, fará sentido tomar consciência do lugar que ocupamos, em que direção seguimos.

Archeo - João Gigante

Numa viagem clara entre épocas não decifráveis, este trabalho cria uma relação naquilo que pode ser uma reação à forma como imaginamos a nossa “transição” no mundo em que vivemos. Especular um sentimento de evolução e constante desmazelo pelas simples coisas que nos rodeiam. Trata-se de um animal, de uma espécie, de um jogo entre o mar e a terra, um jogo de épocas e memórias.

Nas imagens, um orifício em terra é como que um túnel para uma perspectiva estética, a descoberta de novas coisas, de novas formas. Surge no espaço documentado um anzol, o detalhe que constrói o todo. Do mar para a terra, numa estrutura expositiva que acentua ainda mais esta ideia de deslocação, um transporte/transição frágil. Archeo estabelece aqui uma ligação formal com a ação do artista enquanto arqueólogo, talvez pela forma ou necessidade de descrever em diferentes camadas a relação com o espaço em que vivemos, com a transposição de uma narrativa para uma outra dimensão: a arqueologia da metáfora.

A criação de imagens, desde a fotografia aos desenhos realizados/recolhidos, levanta um conjunto de percepções sobre uma narrativa construída que traduz uma necessidade colectiva de entender o que “pisamos”, o que vivemos e experienciamos.

Uma viagem entre possíveis novas narrativas que descrevem esta adaptação, num mundo que transita entre falhas e necessidades. Um lugar em pausa.

http://joaogigante.pt/

Humanimal - Rita Castro Neves & Daniel Moreira

humanimal parte da idealização de um mundo mais conectado nos seus elementos entre natureza e humano.

Esta ideia-necessidade de rever a separação desalinhada entre nós e o mundo, propõe como que uma transição para uma nova forma de ser. As imagens da série são assim experiências de novos humanos-natureza-animais, em corpos adaptados e em transição.

Todavia, a adaptação proposta não fecha uma proposta ecológica ou humanamente concretizável, mas antes uma experiência visual, sobre possibilidades materializáveis através da imagem. A série não é programática - antes poética e utópica - e lança mão do meio que dominamos e operamos: a criação artística. Nesta linha, a reflexão não é só a partir, mas também, sobre o fazer fotográfico.

Ancorada na nossa prática de observação da natura, com atenção especial às qualidades matéricas dos elementos seus, são aqui exploradas as possibilidades formais e materiais de folhas, esponjas, cascas, para potencializar as suas relações com o humano, para lá do seu ser-objeto.

Os corpos que usamos são os nossos, expondo-nos à experiência - do fazer e do olhar. A performatividade destes corpos transformando-se em diferentes paisagens implicam o que é claramente visível nas imagens, isto é que as deslocações físicas são várias - de geografia, bioma e estação do ano - mas que a nossa deslocação é também outra, a de nos reposicionarmos num atelier móvel e a céu aberto.

Nos jardins exteriores três estruturas incluem oito fotografias de empoderamento. Cada uma, afirmação visual, assenta na ligação inusitada entre os elementos encenados (humano-não humano-paisagem, sublinhando uma reflexão sobre relações visuais criadas entre corpo humano e corpo natural, como um corpo único - ainda que ideologicamente ficcionado. Assim como um mapa não é um território, mas apenas uma sua representação, as aproximações visuais operadas são do campo bidimensional, não se aguentando a um espreitar lateral, ou a uma lógica realista. Essa visível fragilidade destas imagens fabricadas, sublinha também o caráter incerto do nosso futuro.

http://ritacastroneves.com/pt/

https://www.danielmoreira.net/

Este grupo de artistas com distintas formações revelam-nos diferentes perspectivas na abordagem das questões ecológicas, sejam espirituais, sociais ou políticas. As diversas instalações site-specific, distribuídas pelos jardins e pela capela Carlos Alberto, estão entrelaçadas e envolvem fotografia, som e vídeo, com objetos diversos e plantas, formando um campo estético rizomático de figuras adaptadas e em transição. A experiência que se pretende atingir não tenciona ser ideal nem definitiva, mas apenas um convite a estabelecer outros níveis de interconectividade, novas possibilidades de significado que se mantém, naturalmente, em aberto.

JARDINS PALÁCIO DE CRISTAL
Rua de D. Manuel II, 4050-346 Porto
+351 225 320 080
todos os dias das 8h - 21h

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João Gigante, Archeo.
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Lisa Hoffman, How Curious How Real.
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Rita Castro Neves & Daniel Moreira, Humanimal.
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Cláudio Reis, An Immense Journey.
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Jayne Dyer, This Savage Garden.
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Sérgio Leitão, La Vie au Grand Air II.
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Maria Oliveira, É Ainda Manhã.
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Constanze Flamme, Uma Conversa sobre Terra.
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Diogo Bento, Tchon d'Holanda.