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Edson Chagas, Oikonomos.

EXPOSIÇÕES > Sixth Nature

Curadoria de Diogo Bento

A exposição Sixth Nature tem o seu foco em diferentes perspectivas e sensibilidades sobre a ecologia, a forma como nos relacionamos com a natureza e o ambiente em nosso redor.

Por muito que já tenha ocupado o seu lugar no discurso quotidiano, a introdução do Antropoceno no léxico científico e mais tarde nas ciências sociais e na arte contemporânea parece não ter contribuído para uma alteração do estado das coisas no que tange ao aceleramento do aquecimento global, agravamento das alterações climáticas e degradação do meio ambiente. Pelo contrário, ao implementar a noção de que todos somos responsáveis e que todos estamos envolvidos nesta encruzilhada, o Antropoceno, entendido como o 6º grande período geológico da Terra, caracterizado pelo impacto da actividade humana no funcionamento dos ecossistemas, não tem em consideração os processos históricos e sociais determinantes das presentes condições da relação entre a humanidade e a natureza, nomeadamente o imperialismo, o colonialismo, a opressão e a luta de classes.

As soluções apresentadas pela ciência para o combate às alterações climáticas, que advêm deste enquadramento Antropocénico, são geralmente de ordem técnica ou administrativa, alimentadas por uma compulsão securitária, capitalista e tecnológica.

O que a arte parece ter a capacidade (e o dever?) de fazer é apresentar leituras alternativas e moldar as narrativas dominantes, no sentido de abrir um leque de possibilidades para novas dimensões sociais, ecológicas e espirituais em torno das relações entre sociedade e ambiente. Enquanto espaço de construção e experimentação, as práticas artísticas contemporâneas têm o potencial de motivar um debate crítico e despoletar mudanças de atitude através da experiência estética que proporciona, mesmo que simbólica e limitada.

Wonderboom - Lien Botha

O trabalho de Botha, Wonderboom, consiste numa série de 18 fotografias, nas quais uma coleção de objetos, fixados ou apoiados numa placa, desaparece gradualmente até deixar um espaço cujas marcas podem apenas sugerir qualquer conteúdo anterior. Diversos objetos, entre os quais um mapa, um garfo, uma pena ou um cão de porcelana, exigem a nossa atenção, apenas para se desvanecerem.

Wonderboom acompanha uma trajetória de perda e de desintegração. As camadas de significado são progressivamente removidas, interrompendo ligações e associações consoante vão desaparecendo. A coleção de objetos passa a constituir uma mente que perde lentamente o controlo sobre si própria, um lugar lentamente erodido, uma história esquecida ou confusa. Esta entropia visual produz uma sensação tátil de perda, recordando-nos que a experiência vivida assenta em camadas complexas de associação que estão constantemente vulneráveis a perturbações, à destruição e ao delírio.

http://www.lienbotha.co.za/

Oikonomos - Edson Chagas

Na série Oikonomos, Edson Chagas fotografa-se a si próprio posando com diversos sacos plásticos cobrindo-lhe a cabeça. Estes sacos são derivados de bens de consumo produzidos em massa encontrados em diferentes locais à volta do mundo. Chagas recorre a este ato performativo para falar de um sentido des-personalizado numa era de consumismo global. A individualidade do artista é mascarada pelos detritos da cultura popular. Chama também a atenção para o influxo dos produtos em segunda mão que são levados para África através de instituições de caridade e projetos missionários, que deixam para trás uma miríade de vestígios dos lugares onde esses materiais foram produzidos e utilizados pela primeira vez.

Os trabalhos aqui apresentados não se prestam à objectificação de problemáticas ambientais ou climáticas, nem tão pouco as abordam enquanto entidades autónomas, mas incorporam uma dimensão e considerações políticas e sócio-ecológicas, engendrando possibilidades de transformação com vista a uma política de justiça social.

A série Oikonomos, de Edson Chagas (Angola), encerra uma multitude de questionamentos e de camadas de leitura possíveis.

Os sacos de plástico com que ensaia estes auto-retratos povoam a paisagem dos mercados locais de Luanda e ostentam uma série de símbolos do capitalismo neo-colonial, são resíduos de uma cultura de dominação económica e assistencialismo, presentes no dia-a-dia dos países do Sul global.

Trata-se também de um protesto sensível e pessoal, onde o artista empreende, através de um jogo entre a cegueira e a vontade de não ver e a decapitação sugerida, o seu desespero perante a situação de asfixia económica, social e ecológica perpetrada pelos países ocidentais.

Lien Botha (África do Sul), em Wonderboom traça um relacionamento de diferentes ordens com a (sua) natureza, oferecendo-nos o seu universo íntimo e pessoal em formato de “cabinet” de curiosidades. Os objectos coleccionados pela artista, ainda que progressivamente desaparecendo do quadro (uma história de perda e esquecimento), deixam-nos os vestígios da sua presença. É a partir destas marcas, destas pré-existências, para lá do seu desaparecimento físico, que somos convidados a construir uma nova narrativa.

CENTRO PORTUGUÊS DE FOTOGRAFIA
Largo Amor de Perdição, 4050-008 Porto
+351 220 046 300
Ter > Sex 10h - 18h
Sáb, Dom e feriados 15h - 19h

*Feriados em Junho
Seg 10 > Qui 20 > Dom 23

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Edson Chagas, Oikonomos.
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Lien Botha, Wonderboom.
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