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Lucas Foglia, Human Nature.

EXPOSIÇÕES > Stories on Earthly Surviving

Curadoria Krzysztof Candrowicz
Co-curadoria Emma Bowkett

“Think we must” diz a célebre citação de Virginia Woolf. Contudo, pensar é unicamente o primeiro passo, uma vez que as mudanças fundamentais surgem apenas se os pensamentos se concretizarem em ações. Assim, o que podemos fazer além de pensar para salvar o nosso planeta?

Tornou-se evidente que a influência humana no ambiente atingiu uma etapa perigosa.

É necessária uma mudança imediata para minimizar a devastação do ecossistema natural. Recentemente, recebemos algumas chamadas de atenção deveras preocupantes. Em 2016, mais de 15.000 cientistas de 184 países (incluindo a maioria dos laureados com o prémio Nobel vivos) assinaram o “Aviso à humanidade” onde se enumeram as ações a implementar para salvar a Terra. Donna Haraway, na sua convincente declaração “Anthropocene, Capitalocene, Chthulucene”, salientou claramente que se continuarmos esta destruição massiva necessitamos de assumir a responsabilidade pela completa aniquilação do planeta. A sua pergunta contundente “somos os Eichmanns do século XXI?” será comprovada nas próximas décadas. Porém, o momento de prevenir é agora.

Human Nature - Lucas Foglia

A obra Human Nature articula histórias sobre as pessoas, a natureza e a ciência da nossa relação com os lugares selvagens.

Lucas Foglia cresceu com a sua família alargada numa pequena quinta, a cerca de 50 km a este de Nova Iorque. A floresta que rodeava a quinta era um lugar selvagem para brincar, porém, era ignorada pelos seus vizinhos, que viajavam diariamente para Manhattan. Em 2012, o furação Sandy inundou os terrenos da família e derrubou as árvores mais antigas do bosque. No noticiário, Foglia ouviu os cientistas a culpar as alterações climáticas causadas pela atividade humana pela ocorrência da tempestade. Compreendeu assim que se os humanos estão a mudar o tempo, que não existirá então nenhum lugar na terra inalterado pelas pessoas.

Após a tempestade, Foglia começou a fotografar nas cidades, florestas, quintas, desertos, campos de gelo e oceanos. Numa altura em que os americanos passam, em média, noventa e três por cento das suas vidas dentro de casa, Foglia fotografou programas governamentais que visam trazer as pessoas de novo ao contacto com a natureza, neurocientistas que investigam os efeitos benéficos de passar tempo ao ar livre, e cientistas climáticos que avaliam em que medida a atividade humana influencia a atmosfera.

Costumávamos entender a natureza como todas as partes da terra virgens da ação humana. Mas, se não houver nenhum lugar inalterado pelas pessoas na terra, então a natureza já não existe. Em simultâneo, as investigações sugerem que o tempo passado em lugares selvagens é essencial para a nossa saúde e felicidade.

A obra Human Nature centra-se na nossa relação atual com a natureza, na nossa necessidade de lugares selvagens mesmo que estes tenham sido moldados por nós.

www.lucasfoglia.com

Soup, Sand, Beyond Drifting: Imperfectly Known Animals - Mandy Barker

SOPA

Sopa é a descrição conferida aos detritos plásticos em suspensão no mar, particularmente a acumulação de massa existente na zona do Pacífico Norte designada como a Grande Ilha de Lixo do Pacífico Esta série de imagens visa envolver e estimular a resposta emocional do espectador criando uma contradição entre as atrações estéticas iniciais e a consciência social.

Os plásticos fotografados foram recolhidos em praias de todo o mundo e representam uma coleção global de detritos que permaneceram durante diferentes períodos de tempo nos oceanos do mundo. As legendas referenciam os objetos de plástico como uma lista de “ingredientes”, proporcionando ao espectador a ideia nítida do que hoje é realmente o mar.

MAIS ALÉM DA DERIVA: ANIMAIS IMPERFEITAMENTE CONHECIDOS

O Plâncton, constituído por Animais Imperfeitamente Conhecidos [Imperfectly Known Animals], forma um conjunto de diversos organismos aquáticos microscópicos que vivem na coluna de água, incapazes que nadar contra a corrente, e que existem num estado flutuante, à deriva nas águas. Nesta série de “espécimes” únicos, a espécie animal relaciona-se com as descobertas pioneiras em matéria de plâncton realizadas pelo biólogo marinho John Vaughan Thompson em Cobh, no Porto de Cork, nos inícios do século XIX. Apresentados como amostras microscópicas, os objetos criados com detritos plásticos marinhos recolhidos no mesmo local, mimetizam as primeiras descobertas científicas de Thompson no âmbito do plâncton.

As investigações científicas da atualidade constataram que o plâncton ingere partículas de plástico
microscópicas, confundindo-as com alimentos e, na base da cadeia alimentar, este é uma fonte vital de alimento para muitas criaturas maiores. O potencial impacto na vida marinha e, em última instância, nos seres humanos, é neste momento uma preocupação fundamental. Em termos de plâncton, e de ação, estamos “mais além da deriva” e devemos trazer os “animais imperfeitamente desconhecidos” para o centro das atenções.

https://mandy-barker.com/

In Fourth Person - Martin Errichiello & Filippo Meniche

Uma parte significativa da história política italiana dos últimos cinquenta anos está inegavelmente envolta em mistério. Até hoje, algumas das suas histórias e eventos, públicos e privados, mais ou menos importantes, permanecem secretos, ignorados e, em alguns casos, até censurados. De norte a sul, o país encontra-se frequentemente unido em nome do esquecimento. A memória - o ato de praticar a memória - representa, por outro lado, um poderoso meio para que as pessoas se recordem dos seus pertences perdidos e recuperem o que foi esquecido, roubado. Desde a década de 1960, nas brumas do denominado “milagre económico”, os poderes culturais e políticos de Itália estabeleceram um processo de transformação de territórios e tradições vasto e radical em nome de um progresso alimentado por novas estradas, novas máquinas e indústrias e, definitivamente, uma nova identidade. Uma identidade que deveria ser capaz de interligar - técnica e politicamente – áreas ricas e em progresso às zonas mais isoladas do país, levando aos seus cidadãos mais remotos a promessa de mudança. A região da Calábria - o estudo de caso da nossa exploração visual - é uma terra antiga onde o desafio da modernidade impôs a sua linguagem e estética, oprimindo lentamente a paisagem humana e natural do território. A obra In Fourth Person é uma investigação multimédia sobre a sua transformação antropológica, geopolítica e ambiental nos últimos 50 anos, cuja “narração” permanece fragmentada.

Criada ao longo da autoestrada A3 Salerno–Reggio Calabria, no enredo simbólico do nosso projeto, a investigação examina transversalmente a iconografia e as histórias de uma paisagem suspensa entre a utopia e a traição. As fotografias, os objetos, os documentos e os vídeos são reagrupados como um mosaico coletivo de um nós imaginário: em quarta pessoa.

https://inquarta.persona.com

The Crossing - Katrin Koenning

Tendo por base imagens fixas e de vídeo, The Crossing é um trabalho aprofundado com preocupações associadas ao impacto humano e a uma ecologia australiana na qual o nosso legado é inegavelmente gravado em tudo o que tocamos: água, terra, ar. A obra reflete sobre a natureza em estados de desaparecimento, adaptação e transição. Na obra The Crossing subsiste um sentido em que cada fotografia oferece um retrato em miniatura de um mundo natural na iminência de desaparecer. Há, ao mesmo tempo, uma ambiguidade em jogo, especialmente nas imagens arrebatadores de peixes e pássaros a pairar entre estados de aparecimento e desaparecimento ou processos de emergência e de retirada.

www.katrinkoenning.com

State of Nature - Claudius Schulze

O tema da obra State of Nature centra-se na questão de até que ponto a proteção contra as catástrofes naturais se tornou parte da paisagem europeia. Claudius Schulze viajou cerca de 50.000 km pela Europa, fotografando com uma câmara de grande formato, a partir de uma plataforma de trabalho aérea, paisagens aparentemente pitorescas. Mas, cada um desses cenários idílicos contém imperfeições: os panoramas alpinos são atravessados por abrigos de neve e a costa do Mar do Norte é sulcada por quebra-mares. Nestas fotografias, elevam-se estruturas de proteção na paisagem.

Na era do Antropoceno, as alterações climáticas e os fenómenos climáticos extremos aumentam continuamente as espirais de vendavais, as inundações e as avalanches - são os organismos de proteção civil a preservar a vida quotidiana. Estas fotografias não se prendem com a definição dos limites entre “artificial” e “natural”. Contrariamente, as defesas são o pré-requisito para estas paisagens: O sol brilha na superfície dos lagos das montanhas unicamente porque a água foi artificialmente represada, as dunas apenas se erguem porque estão protegidas contra a impetuosidade das tempestades.

No “Primeiro Mundo”, os relvados são regados, os rios são mantidos sob controlo pelos diques, as montanhas abrem-se aos desportos de inverno. Não é, pois, surpreendente que os europeus tendam a considerar a natureza como pitoresca, atraente, subjugada. Esqueceram-se dos tanques sublimes e ameaçadores que a natureza possui para se defender. A civilização está bem protegida contra os perigos da natureza e os perigos que surgem da poluição ambiental e das desenfreadas emissões de carbono. Neste momento, ainda beneficiamos da condução das alterações climáticas através do nosso consumo. As catástrofes para as quais no equipámos e que são consequência das nossas ações, são em grande medida sentidas noutros lugares e não por nós. Vivemos ainda despreocupados, na crença da beleza pitoresca da natureza que nos rodeia, enquanto noutros lugares, a natureza catastrófica ataca com mais força do que nunca.

www.claudiusschulze.com

Of River and Lost Lands - Sarker Protick

A obra Of River and Lost Lands [Do Rio e das Terras Perdidas] é constituída por uma série de fotografias, apresentada por vezes como uma instalação audiovisual, que representa a paisagem melancólica do rio Padma, no Bangladeche. O rio é a personagem central da história. No início, o local parece abandonado. Tudo o que resta são casas submersas e destruídas e árvores flutuantes. São os traços da vida que já existiu aqui. À medida que a série prossegue, a terra e as pessoas entram no campo de visão e encontram o seu lugar na história. Juntas, retratam uma relação complexa entre a natureza e os seres humanos, que é simultaneamente íntima e implacável, definida pela dependência e pela destruição.

O rio dá tanto ao seu povo e, por vezes, tira-lhe tudo. Os dias estão encobertos e repletos de bruma, criando intemporalidade na atmosfera destas aldeias. Ao longo dos anos, o rio mudou o seu curso. Quando a monção chega, o rio corre com rapidez, a terra é arrastada e desaparece. De uma forma geral, a erosão da margem do rio cria muito mais sofrimento do que outras catástrofes naturais, como as inundações. Ao passo que a inundação rotineira destrói colheitas e danifica as propriedades, a erosão resulta na perda de terras das quintas e propriedades rurais.

Muitos dos lugares destas fotografias já não existem. Como resultado, estas fotografias sobrevivem como documentos visuais destas terras desaparecidas.

www.sarkerprotick.com

Phobos Ex Machina - Ewa Ciechanowska & Artur Urbans

A obra Phobos Ex Machina incide na fotografia como meio de influência num mundo pós-verdade. Os autores gostariam de convencer os visitantes de que as árvores são extremamente perigosas recorrendo a diversas táticas da pós-verdade: bolha de informação, anacoretismo, negligência da probabilidade e enviesamento regressivo. Na mitologia grega clássica, Fobos é a personificação do medo. O termo Deus Ex Machina foi cunhado da tragédia grega, onde se utiliza uma máquina para descer sobre o palco os atores que desempenham o papel de deuses. Phobos Ex Machina examina de que forma a manipulação através do medo afeta as nossas escolhas. A Internet e os meios de comunicação social fizeram a promessa de um fórum “de muitos para muitos”, de uma ferramenta de comunicação verdadeiramente democrática, isenta de influência governamental ou empresarial. Mas esta promessa está a ser atacada. Os poderes interessados empregaram o medo como uma ferramenta para estimular uma ação desejada. Os algoritmos amplificam um ponto de vista à custa de outro. Distorcem a nossa perceção da realidade e, assim, as nossas escolhas - escolhas que acreditamos ter feito de forma independente. As emoções e os meios de comunicação encontram-se numa perigosa circularidade, conduzindo-nos a um mundo dominado pelo medo.

www.ewaciechanowska.com

urbanski.photography

A exposição é uma mostra de nove artistas cujo trabalho aprofunda as narrativas políticas e ambientais que definem o nosso mundo global. Com intensidade e determinação, realizam trabalhos que inexoravelmente desafiam as estruturas sociais e espelham abusos de poder no nosso ambiente natural.

em parceria com a Trienal de Fotografia de Hamburgo e a Embaixada Britânica em Lisboa

CENTRO PORTUGUÊS DE FOTOGRAFIA
Largo Amor de Perdição, 4050-008 Porto
+351 220 046 300
Ter > Sex 10h - 18h
Sáb, Dom e feriados 15h - 19h

*Feriados em Junho
Seg 10 > Qui 20 > Dom 23

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Lucas Foglia, Human Nature.
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Mandy Barker, Soup, Sand, Beyond Drifting: Imperfectly Known Animals.
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Ewa Ciechanowska & Artur Urbans, Phobos Ex-Machina.
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